Em Pinheiro Machado, no sul do Rio Grande do Sul, um produtor vendeu 20 cabeças de gado num leilão virtual. O comprador deu o lance, os animais foram entregues em Soledade e o pagamento de cerca de R$ 100 mil nunca chegou. O caso, investigado pela Polícia Civil gaúcha em 2025, segue um roteiro que já tinha feito cerca de 70 vítimas no estado em 2021, com prejuízo estimado em R$ 30 milhões.
O leilão pela internet é só uma das faces da tecnologia no agronegócio. Drones pulverizam lavouras, sensores medem umidade do solo, máquinas mandam dados para a nuvem e, desde 2026, quase todo produtor rural emite nota fiscal eletrônica. O campo ficou mais produtivo e mais digital. E, como em qualquer lugar onde dinheiro passa a circular por sistemas, os criminosos foram atrás.
Este artigo mostra o que mudou dentro da porteira, por que o agro virou alvo de golpes e ataques, o que a digitalização fiscal muda para o produtor e o que fazer para proteger a propriedade.

Tecnologia no agronegócio: o que já mudou dentro da porteira
Quem visita uma lavoura moderna encontra mais tecnologia do que muito escritório da cidade. Algumas das mudanças mais visíveis:
- Drones agrícolas. Fazem pulverização, mapeamento e contagem de plantas. A frota real é difícil de medir: o registro da Anac tem pouco mais de 13 mil aparelhos declarados para atividade aeroagrícola, enquanto estimativas do mercado falam em 35 mil a mais de 60 mil em operação. Os modelos que carregavam 10 litros em 2015 hoje levam até 300 litros.
- Sensores e telemetria. Tratores, colheitadeiras e pivôs de irrigação enviam dados de localização, consumo e produtividade em tempo real.
- Gestão por aplicativo. Estoque, rebanho, contratos, crédito rural e venda da safra passaram para o celular e para plataformas on-line.
- Leilões e negócios virtuais. A compra e venda de gado e grãos migrou em boa parte para transmissões ao vivo, grupos de WhatsApp e sites de anúncio.
O gargalo ainda é a internet. Segundo o Índice Brasileiro de Conectividade Rural, criado pela associação ConectarAGRO com a Universidade Federal de Viçosa, só 33,9% da área agricultável do país tinha cobertura total de 4G em março de 2025. Era 18,7% no fim de 2023. A conexão chega rápido, mas de forma desigual, e muitas vezes depende de Wi-Fi improvisado na sede da fazenda.
Drones também levantam questões de privacidade e de uso criminoso, temas que já tratamos em drones e privacidade no Brasil e em drones no combate ao crime organizado.
Por que o campo conectado virou alvo de criminosos
Um levantamento da ISH Tecnologia registrou 39.034 alertas de ataques cibernéticos contra o agronegócio brasileiro em 2025, média de mais de 3,2 mil por mês. A maior parte estava nas fases iniciais de um ataque, quando o invasor testa portas e procura falhas. Em outro recorte, a Kaspersky apontou o setor de agricultura e florestal como o terceiro mais visado por malware no Brasil entre junho de 2023 e julho de 2024, com 16,93% das detecções.
O motivo é simples: o agro movimenta muito dinheiro, opera com prazos apertados e, em muitos casos, investiu em máquinas antes de investir em segurança. Uma colheita não espera. Uma cooperativa ou um frigorífico com sistemas parados por um dia perde caminhões, contratos e produto perecível. Isso dá aos criminosos poder de pressão.
O exemplo mais conhecido é o da JBS. Em junho de 2021, um ataque de ransomware, o tipo de vírus que trava os sistemas e exige resgate, parou frigoríficos da empresa nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. A companhia confirmou ter pago US$ 11 milhões em bitcoin ao grupo REvil. Entenda como esse tipo de ataque funciona no guia sobre ransomware no Brasil e nos números de ataques cibernéticos por semana no país.

Os golpes que miram o produtor rural
Ataques sofisticados contra grandes empresas viram notícia, mas no dia a dia quem mais perde dinheiro é o produtor que vende ou compra pela internet. Os casos investigados nos últimos anos mostram alguns padrões.
Leilão virtual e o falso comprador
O golpista arremata animais num leilão on-line ou fecha negócio direto com o vendedor, retira o gado e paga com um meio que depois se revela falso, ou simplesmente não paga. Em fevereiro de 2026, a Polícia Civil de Goiás prendeu três suspeitos de aplicar esse roteiro num leilão em Mundo Novo. Segundo a investigação, os animais eram levados rapidamente para outras propriedades, o que dificultava o rastreamento. A Justiça bloqueou bens do grupo para ressarcir as vítimas.
No Rio Grande do Sul, a Divisão de Repressão aos Crimes Rurais e de Abigeato (Dicrab) investiga casos parecidos. No esquema de 2021, um único produtor de Restinga Seca perdeu 542 novilhas, avaliadas em cerca de R$ 4 milhões.
Cadastro falso e anúncio clonado
Na investigação gaúcha, os criminosos se passavam por produtores registrados, com dados falsos inseridos no sistema da Secretaria da Agricultura do estado. Isso dava aparência de legitimidade ao negócio. Também clonavam anúncios reais de venda de gado, com preço abaixo do mercado, e chegavam a levar compradores a fazendas de verdade, apresentando o rebanho alheio como se fosse deles.
Boleto, Pix e pagamento que não chega
Na venda de grãos, insumos e máquinas, os golpes repetem o que já acontece na cidade: boleto com código adulterado, comprovante de Pix falso e pedido de “taxa de liberação” para receber um pagamento. As modalidades estão detalhadas no artigo sobre golpe do Pix, e o roteiro geral no guia de golpes digitais.
A orientação da polícia gaúcha é direta: pagamentos devem passar por bancos oficiais, e Pix ou TED de valor alto devem ser conferidos na conta antes de liberar a carga ou os animais. Vale também confirmar a identidade do comprador por um canal independente, nunca pelo telefone que ele mesmo informou.

A porteira fiscal também ficou digital
A mudança mais silenciosa da tecnologia no agronegócio não está na lavoura, e sim na papelada. O velho talão de nota fiscal de produtor em papel está sendo aposentado em todo o país.
Pelo Ajuste Sinief nº 27/2024, do Confaz, produtores com receita bruta acima de R$ 360 mil passaram a emitir nota fiscal eletrônica (NF-e) nas operações internas em fevereiro de 2025. Para os demais, a obrigação começou em 5 de janeiro de 2026. Nas vendas para outros estados, a NF-e já era exigida independentemente do faturamento. Com a obrigatoriedade, a nota modelo 4, de papel, deixa de valer.
No Rio Grande do Sul, um decreto estadual ainda permitiu usar os talões que sobraram até 30 de abril. Desde 1º de maio de 2026, a emissão do modelo 4 está proibida no estado, e a nota em papel não tem mais validade fiscal.
Para a contadora Cássia Vogt, especialista em matéria fiscal tributária, sócia da Virtus Soluções Tributárias e esposa do editor deste portal, o desafio vai além de aprender a usar o aplicativo:
“A maior dificuldade não é a emissão em si, e sim a mudança de rotina. Muitos produtores ainda dependem do contador, da cooperativa, do escritório ou de um filho ou funcionário para emitir a nota, e isso cria gargalos na hora da venda, principalmente na safra e em operações de maior volume. Os erros mais comuns envolvem CFOP, NCM, unidade de medida, destinação da produção, benefícios fiscais e informações de transporte. O risco maior é o produtor continuar operando como se o talão de papel ainda fosse válido.”
Cássia Vogt, contadora especialista em matéria fiscal tributária (CRC-RS 104287/O)
A falta de sinal no campo, segundo ela, tem solução parcial: o Nota Fiscal Fácil, aplicativo gratuito da Secretaria da Fazenda gaúcha, permite emitir a nota sem internet e transmiti-la quando a conexão volta.
Ao mesmo tempo, começou a transição da reforma tributária. A sequência, prevista na Emenda Constitucional 132 e na Lei Complementar 214/2025, é esta:
- 2026: ano de teste. A CBS (federal) e o IBS (de estados e municípios) aparecem destacados nas notas, com alíquotas simbólicas que somam 1%, sem cobrança efetiva para quem cumpre as obrigações acessórias.
- 2027: a CBS entra em vigor de fato e substitui o PIS e a Cofins.
- 2029 a 2032: o ICMS e o ISS são reduzidos aos poucos, enquanto o IBS sobe.
- 2033: o novo sistema passa a funcionar por completo.
Para o campo, a lei trouxe regras próprias. Produtores com receita anual abaixo de R$ 3,6 milhões podem ficar fora da condição de contribuinte da CBS e do IBS, e quem compra deles pode aproveitar um crédito presumido. Produtos e insumos agropecuários têm redução de 60% nas alíquotas, e os itens da cesta básica nacional ficam com alíquota zero. Escolher entre ser ou não contribuinte é uma decisão que mexe no preço de venda e merece conta feita caso a caso.
“Para o produtor com receita abaixo de R$ 3,6 milhões, a decisão entre ser ou não contribuinte de CBS e IBS não pode ser tomada apenas pelo tamanho do faturamento. Ela depende do perfil da atividade, dos clientes e da cadeia produtiva.”
Cássia Vogt, contadora especialista em matéria fiscal tributária
Na balança, segundo a especialista, entram cinco pontos:
- Para quem vende. Se os compradores são contribuintes de CBS e IBS e precisam de crédito pleno, ser contribuinte pode facilitar a negociação.
- Volume de compras tributadas. Quem compra muitos insumos, máquinas, serviços e mercadorias com direito a crédito pode se beneficiar do regime regular.
- Carga efetiva. É preciso comparar os créditos que poderão ser aproveitados com os débitos que passarão a ser recolhidos.
- Custo administrativo. O regime regular exige mais controles, escrituração, emissão correta e acompanhamento técnico.
- Crédito presumido. O produtor não contribuinte gera crédito presumido para o comprador contribuinte, o que pode preservar a competitividade sem assumir a apuração regular.
“Em termos gerais, o produtor que vende principalmente para contribuintes do novo sistema e tem boa estrutura contábil pode ter vantagem no regime regular. Já o de menor escala, com vendas diversificadas, pouca capacidade administrativa ou clientes que não exigem crédito pleno, tende a se beneficiar permanecendo como não contribuinte, desde que o crédito presumido seja refletido na negociação.”
Cássia Vogt, contadora especialista em matéria fiscal tributária

O que isso tem a ver com segurança digital
Com a nota eletrônica, os dados de venda, compra e estoque da propriedade passam a existir em sistemas on-line, acessados por certificado digital, conta gov.br ou senha de aplicativo. Quem obtém esse acesso consegue emitir notas em nome do produtor, consultar o faturamento ou montar golpes muito convincentes, com dados reais de negociações.
Segundo Cássia Vogt, esse risco já aparece no dia a dia de quem atende produtores:
“Esses casos existem e tendem a aumentar com a digitalização. Já são comuns situações de certificado digital compartilhado, senhas anotadas ou repassadas a terceiros, certificados vencidos sem controle, notas emitidas com dados incorretos e golpes que usam e-mails, notas falsas ou acessos indevidos para aplicar fraudes.”
Cássia Vogt, contadora especialista em matéria fiscal tributária
O certificado digital salvo no computador da sede, sem senha forte, é um risco parecido com deixar o talão de cheques assinado em cima da mesa. As mesmas regras de proteção de contas que valem para o banco valem aqui, como explicamos em como hackers roubam contas.
Dados fiscais digitais também revelam créditos esquecidos
Há um lado bom na digitalização. Com notas, escriturações e pagamentos em formato eletrônico, ficou mais fácil revisar o histórico fiscal e encontrar tributos pagos a mais ou indevidamente. O Código Tributário Nacional dá prazo de cinco anos para pedir essa restituição ou compensação.
No agro, as oportunidades mais comuns aparecem em empresas e agroindústrias do regime não cumulativo, que podem descontar créditos de PIS e Cofins sobre insumos essenciais ou relevantes para a atividade, critério firmado pelo Superior Tribunal de Justiça em 2018, e em exportadores com saldo de ICMS acumulado. Cada caso depende do regime tributário, da atividade e da documentação, e precisa de análise técnica.
Na experiência de Cássia Vogt, os créditos mais deixados para trás no agro são:
- PIS e Cofins sobre insumos, embalagens, combustíveis, energia, frete e serviços usados na produção;
- créditos presumidos e benefícios ligados à exportação;
- créditos de ICMS em operações e insumos, conforme a atividade e a legislação estadual;
- saldos credores acumulados, principalmente em períodos de baixa receita, investimento ou exportação;
- créditos de PIS e Cofins anteriores à transição para a CBS, que, pela Lei Complementar 214/2025, continuam aproveitáveis desde que devidamente escriturados.
“Isso acontece porque a rotina do produtor é voltada à produção, não à gestão fiscal. Muitas compras são feitas em diferentes fornecedores, cooperativas e revendas, há mistura entre despesas de custeio, investimento e consumo pessoal e, em alguns casos, faltam documentos fiscais ou controles que mostrem a destinação do bem ou serviço. Sem revisão periódica por um profissional especializado, o produtor acaba pagando mais tributo do que deveria ou deixando de recuperar valores a que já teria direito.”
Cássia Vogt, contadora especialista em matéria fiscal tributária
Para produtores e empresas do agro
A Virtus Soluções Tributárias faz análise e recuperação de créditos tributários para produtores rurais e empresas do agronegócio, além de planejamento e compliance fiscal. A análise preliminar é gratuita.
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Transparência: Emerson Vogt, editor do Portal Segurança Tec, e Cássia Vogt, especialista ouvida neste artigo, são sócios da Virtus.
Checklist: segurança digital na propriedade rural
Nenhuma das medidas abaixo exige grande investimento. A maioria leva minutos e fecha as portas usadas nos golpes descritos acima.

- Confira o pagamento na conta antes de liberar gado, grãos ou máquinas. Comprovante enviado por mensagem não é prova de que o dinheiro entrou.
- Confirme a identidade do comprador por um canal independente: telefone da leiloeira, referência de outro produtor, consulta ao CNPJ ou ao cadastro de produtor.
- Desconfie de preço muito abaixo do mercado em anúncios de gado, insumos e máquinas.
- Proteja o certificado digital com senha forte e não deixe a cópia do arquivo em e-mail ou pendrive esquecido.
- Ative a verificação em duas etapas no e-mail, no WhatsApp, no gov.br e nos aplicativos do banco.
- Separe o computador da gestão do uso geral da família e dos funcionários, e mantenha o sistema atualizado.
- Nunca envie certificado digital ou senha por WhatsApp, e-mail ou mensagem comum, nem para quem cuida das notas.
- Confira de tempos em tempos as notas emitidas no seu CPF ou CNPJ, para descobrir cedo uma emissão que você não fez.
- Tenha um responsável técnico ou contábil acompanhando as emissões e os acessos aos sistemas fiscais.
- Troque a senha padrão do roteador da sede e crie uma rede separada para visitantes.
- Faça backup dos dados de rebanho, safra e notas fiscais fora do computador principal, para que um ransomware não leve o histórico inteiro.
Para criar senhas fortes sem esforço, use o gerador de senhas do portal. Para cooperativas e empresas, o ponto de partida está no guia de segurança digital para pequenas empresas, e as obrigações com dados pessoais de clientes e funcionários estão em LGPD para empresas.
Tecnologia no agronegócio pede cuidado com a porteira digital
A tecnologia no agronegócio já não é tendência: está no drone que pulveriza, na nota que sai pelo aplicativo e no lance dado do celular durante o leilão. Cada uma dessas facilidades abriu também uma porta nova. O produtor que cuida da porteira da fazenda com cadeado e cachorro precisa cuidar da porteira digital com o mesmo rigor.
“Meu conselho é tratar a área fiscal como parte da gestão da propriedade, e não como uma exigência burocrática isolada. O produtor que organizar documentos, revisar créditos, adequar a emissão de notas e planejar a transição para CBS e IBS terá mais segurança, menos risco fiscal e melhores condições de negociar sua produção.”
Cássia Vogt, contadora especialista em matéria fiscal tributária
A boa notícia é que as defesas são simples e baratas comparadas ao prejuízo de um rebanho entregue sem pagamento. E a mesma digitalização que expõe dados também ajuda a organizar a vida fiscal e a recuperar o que foi pago a mais. Para continuar, veja o guia de golpes digitais e o que fazer se tiver o celular roubado, aparelho que hoje concentra banco, notas e negócios de muita propriedade rural.
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Fontes consultadas
- Compre Rural, com informações do g1: pecuarista perde R$ 100 mil em golpe com leilões virtuais e anúncios falsos (RS)
- Portal PaNoRaMa: golpe em leilão de gado leva Polícia Civil a prender três pessoas em Goiás (fev/2026)
- Economic News Brasil: drones agrícolas avançam no Brasil (out/2026)
- DPL News: ConectarAGRO e UFV criam índice para medir conectividade rural
- O Presente Rural: agro brasileiro registra mais de 39 mil ataques cibernéticos em 2025 (ISH Tecnologia)
- O Presente Rural: o agro virou digital e os hackers descobriram um novo campo fértil (dados da Kaspersky)
- Canaltech: JBS pagou US$ 11 milhões a responsáveis por ataque cibernético (2021)
- Notícias Agrícolas: NF-e será obrigatória para produtores rurais (Ajuste Sinief nº 27/2024)
- Governo do RS / Sefaz-RS: talão de produtor remanescente até 30 de abril; modelo 4 vedado a partir de 1º de maio de 2026
- TecnoSpeed: reforma tributária para o produtor rural
- Planalto: Lei Complementar nº 214/2025
- Planalto: Código Tributário Nacional (art. 168)

