Brasil registra 4.001 ataques cibernéticos por semana: o que a Check Point Research revela sobre 2026

Mapa digital destacando o Brasil como ponto crítico de ataques cibernéticos

Em junho de 2026, cada organização brasileira sofreu, em média, 4.001 tentativas de ataque cibernético por semana. A média global no mesmo mês foi de 2.270. O Brasil não está só um pouco acima da curva — está quase no dobro dela.

Os números são do relatório mensal de inteligência de ameaças da Check Point Research (CPR), divisão de inteligência da Check Point Software, uma das referências globais em monitoramento de ciberataques. E o crescimento não é um pico isolado: o volume brasileiro subiu 44% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Por trás desse salto, um fator aparece repetidamente nos relatórios mais recentes da CPR: o uso cada vez maior de inteligência artificial — tanto pelos atacantes quanto, de forma menos óbvia, pelas próprias empresas que tentam se defender.

Os números: Brasil muito acima da média mundial

Segundo a Check Point Research, o Brasil ultrapassou a marca de 4 mil ataques semanais por organização em junho, mantendo uma tendência que já vinha se desenhando nos meses anteriores — em abril, o país havia registrado 4.118 ataques semanais, alta de 46% ano a ano.

Para efeito de comparação, a América Latina como região também lidera o ranking mundial de ataques: 3.501 por semana em junho, crescimento de 27% na comparação anual — à frente de Ásia-Pacífico (3.060) e África (3.008). No mundo, a alta foi de 17% em um ano: Europa e América do Norte cresceram 22% e 14%, enquanto a África recuou 9%.

Comparação entre volume de ataques cibernéticos no Brasil e média global

Agosto de 2026: a escalada continuou

Os relatórios seguintes da Check Point Research mostram que junho não foi exceção. Em agosto, a média brasileira subiu para 4.174 ataques semanais por organização, alta de 48% sobre agosto de 2025, quando o país registrava 2.822. A média global ficou em 2.422, e a América Latina seguiu como a região mais atacada do mundo, com 3.577. No ranking brasileiro, Governo continuou em primeiro, seguido por Energia e Serviços Públicos e por Serviços Empresariais; no mundo, Educação chegou a 5.354 ataques semanais.

Mês de 2026Ataques semanais por organização no BrasilVariação em um ano
Abril4.118+46%
Junho4.001+44%
Agosto4.174+48%

Vale uma ressalva de leitura: o indicador conta tentativas de ataque, não invasões consumadas. Ele mede a pressão sobre as organizações, e não quantas delas foram de fato comprometidas.

Quem está na mira: os setores mais visados

No Brasil, o setor governamental segue como o mais atacado, seguido por Bens e Serviços de Consumo e Energia e Serviços Públicos. Já no cenário global, Educação lidera com folga — média de 4.816 ataques semanais por organização, alta de 16% ano a ano —, puxada por redes abertas, alta rotatividade de dispositivos e orçamentos de segurança limitados em escolas e universidades.

Esse padrão setorial não é acidente: instituições com grande superfície de exposição digital e recursos de segurança desproporcionalmente menores tendem a concentrar o maior volume de tentativas de invasão, independentemente do país.

O papel da IA: dos dois lados da linha de frente

A Check Point Research aponta a inteligência artificial como um dos principais motores da aceleração recente. No Relatório de Cibersegurança 2026 — a 14ª edição anual da empresa — a média global de ataques semanais em 2025 chegou a 1.968, um salto de 70% desde 2023, atribuído ao uso crescente de automação e IA por parte dos próprios atacantes: campanhas mais rápidas, mais personalizadas e capazes de operar em múltiplas frentes simultaneamente.

Mas existe um segundo ângulo, menos discutido: o risco que a própria adoção corporativa de IA generativa cria. Segundo a CPR, 1 em cada 26 prompts enviados a ferramentas de IA generativa a partir de redes corporativas apresentou alto risco de vazamento de informações sensíveis — uma taxa global de 3,9%. Essa atividade de alto risco foi identificada em 85% das organizações que usam essas ferramentas com regularidade. Em junho, a América Latina teve a maior taxa regional de prompts de alto risco: 5,2%, acima da média global.

O relatório de junho também detalha o que vaza. Entre as organizações com atividade de alto risco, 80% expuseram dados pessoais, 62% informações de rede e infraestrutura, 61% documentos jurídicos ou regulatórios, 60% dados financeiros e 57% registros de funcionários. Em agosto, a proporção melhorou, com um prompt de alto risco a cada 43, mas o uso subiu para 106 prompts mensais por usuário, e 86% das empresas que usam IA ainda registraram interações de alto risco.

Em abril, as empresas brasileiras usaram em média dez ferramentas distintas de IA, com o usuário corporativo típico gerando 77 prompts por mês. Esse volume amplia a superfície de exposição: cada prompt com dado sensível colado sem cuidado é, potencialmente, uma informação confidencial saindo do controle da empresa — um risco que já discutimos em detalhe ao explicar as obrigações da LGPD para empresas em 2026.

Inteligência artificial usada tanto por atacantes quanto como risco de vazamento corporativo

Ransomware: novos grupos, mesma pressão

O cenário de ransomware segue em movimento constante. Em junho, a CPR contabilizou 646 ataques de ransomware publicamente reportados no mundo, alta de 33% em relação a junho de 2025. No mesmo mês, o grupo The Gentlemen, operação de ransomware como serviço surgida em meados de 2025, ultrapassou o Qilin como o mais ativo, com 17% dos ataques publicados, ilustrando como novos operadores conseguem se tornar ameaças relevantes em pouco tempo.

Dois meses depois, o quadro já era outro. Em agosto, a CPR registrou 1.042 vítimas de ransomware, quase o dobro de um ano antes, e o Qilin voltou à liderança, com 15% das extorsões publicadas. Serviços Empresariais concentraram 36% dos casos.

A lógica por trás desses ataques segue os princípios que já detalhamos em ransomware: o que é, como funciona e como se proteger — mas agora operando em escala e velocidade maiores, com apoio de ferramentas automatizadas.

Proliferação de grupos de ransomware em rede digital

A porta de entrada mais comum ainda é o e-mail

O relatório de agosto traz um dado que ajuda a dimensionar o risco no dia a dia: uma em cada 112 mensagens de e-mail era phishing, e 72% dessas abordagens usavam links maliciosos, à frente dos anexos. É o mesmo caminho descrito no artigo sobre como hackers roubam contas: a maior parte dos ataques não quebra sistemas, convence alguém a clicar.

Por que a América Latina virou alvo prioritário

Segundo Omer Dembinsky, gerente de Pesquisa de Dados da Check Point Research, o crescimento observado nos últimos meses não reflete um pico isolado, mas uma escalada ampla: os atacantes estão ampliando o alcance entre regiões e setores, enquanto grupos de ransomware se reorganizam e aumentam a escala de atuação.

Para a América Latina especificamente, a combinação de infraestrutura crítica em expansão, digitalização acelerada de serviços públicos e privados, e investimento em segurança historicamente mais baixo que em mercados maduros ajuda a explicar por que a região aparece consistentemente no topo dos rankings de ataques por organização — à frente inclusive de regiões com volume absoluto de ataques maior.

O que isso significa na prática para empresas brasileiras

Os números da CPR reforçam um ponto que já discutimos ao explicar por que pequenas empresas viraram alvo preferencial de ataques: a escala do problema não é mais um risco distante ou hipotético. Estar acima da média global de ataques significa que a questão não é se uma organização brasileira vai enfrentar uma tentativa de invasão, mas quantas vezes por semana isso já está acontecendo.

Do lado da IA generativa, a recomendação prática é simples: tratar prompts corporativos com o mesmo cuidado que se tem ao enviar um e-mail — nunca colar dados sensíveis, contratos, informações de clientes ou credenciais em ferramentas de IA sem antes confirmar as políticas de retenção e uso de dados daquele serviço.

Empresa brasileira cercada por múltiplas tentativas de ataque cibernético

Se a tentativa virar incidente: o que a ANPD exige

Quando um ataque atinge dados pessoais, entra em cena o Regulamento de Comunicação de Incidente de Segurança, aprovado pela Resolução CD/ANPD nº 15, de abril de 2024. Os pontos centrais:

  • Quando comunicar: se o incidente puder causar risco ou dano relevante aos titulares, o que envolve critérios como dados sensíveis, financeiros, de autenticação, de crianças, adolescentes ou idosos, ou em larga escala.
  • Prazo: três dias úteis para avisar a ANPD e os titulares, contados de quando a empresa toma conhecimento de que dados pessoais foram afetados.
  • Pequeno porte: o prazo é contado em dobro.
  • Registro: todo incidente deve ficar registrado por pelo menos cinco anos, inclusive os que não foram comunicados.

O impacto financeiro de um incidente vai além da multa, como mostramos em os cinco prejuízos que os ataques digitais causam às empresas.

Como as empresas podem reduzir a exposição

  • Mapear quais ferramentas de IA generativa são usadas internamente e definir políticas claras sobre o que pode e o que não pode ser inserido em prompts
  • Priorizar autenticação em dois fatores e backups isolados, medidas básicas que continuam sendo a linha de defesa mais eficaz contra ransomware
  • Monitorar continuamente a superfície de exposição digital, especialmente em setores como governo, educação e serviços que concentram o maior volume de ataques
  • Treinar equipes para reconhecer que a automação também tornou phishing e engenharia social mais sofisticados e convincentes
Defesa digital bloqueando múltiplas tentativas de ataque cibernético

Os números do relatório, lado a lado

Os dados abaixo são dos relatórios da Check Point Research citados ao longo do texto. Com exceção da linha de agosto, todos se referem a junho de 2026.

IndicadorNúmeroContexto
Ataques semanais por organização no Brasil em junho4.001Alta de 44% em um ano
Ataques semanais por organização no Brasil em agosto4.174Alta de 48% em um ano
Média global2.270O Brasil fica quase no dobro
América Latina3.501Alta de 27%; região mais atacada do mundo
Ásia-Pacífico3.060Abaixo da América Latina
África3.008Abaixo da América Latina
Setor de Educação, no mundo4.816Alta de 16%; setor mais visado globalmente
Ataques de ransomware reportados no mundo646Alta de 33% sobre junho de 2025
Prompts corporativos de alto risco1 em cada 26 (3,9%)Na América Latina, a taxa foi de 5,2%

Ataques cibernéticos no Brasil: a prioridade é a defesa básica

O Brasil não está apenas acompanhando uma tendência global de aumento de ciberataques — está na liderança dela, junto com o restante da América Latina. Os dados da Check Point Research deixam claro que a inteligência artificial acelera o problema dos dois lados: dá mais poder de fogo a quem ataca e cria novos pontos cegos para quem, sem perceber, expõe dados sensíveis em ferramentas de IA no dia a dia de trabalho.

Entender esses números não é motivo para pânico, mas para priorização: a defesa básica bem executada continua sendo o fator que mais separa uma tentativa de ataque de um incidente real.

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Fontes consultadas

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