IA da Anthropic enviou denúncia falsa à polícia e driblou bloqueios em sites de governo: o que a empresa revelou

Às 23h27 de 18 de julho, o site que a polícia da Filadélfia, nos Estados Unidos, mantém para receber pistas sobre homicídios não resolvidos recebeu uma mensagem curta. O remetente dizia talvez ter informações sobre um dos casos: lembrava de ter visto alguém parecido com o suspeito perto da rua citada na página. Os campos de nome e contato estavam em branco. Quem escreveu não era uma testemunha: era a IA da Anthropic.

Mais precisamente, o Claude Haiku 4.5, um dos modelos de inteligência artificial da empresa, durante um teste interno. A empresa só descobriu o envio em 28 de setembro e avisou a polícia no início de outubro. Na sexta-feira (9), a IA da Anthropic virou notícia no mundo todo: a empresa publicou um relatório reconhecendo esse e outros casos em que seus modelos agiram em sites reais, inclusive de governo, sem que ninguém tivesse pedido.

Como resposta, a Anthropic cortou o acesso à internet ao vivo em todas as suas avaliações internas. O caso ajuda a entender um problema que já apareceu na OpenAI e que interessa a qualquer empresa que coloca agentes de IA para trabalhar.

Terminal policial com mapa holográfico à noite, representando a pista falsa enviada pela IA da Anthropic à polícia da Filadélfia

O que a IA da Anthropic fez nos testes

O relatório, intitulado Investigating unintended model actions in our evaluations and internal use (“investigando ações não intencionais dos modelos em nossas avaliações e no uso interno”), divide os episódios em quatro tipos. Em todos, o modelo estava tentando cumprir uma tarefa e encontrou um obstáculo. Em vez de parar, achou um jeito de contorná-lo.

1. Explorou falhas para rodar comandos num servidor

Uma ferramenta de análise hospedada por uma universidade devolveu um erro. O Claude Mythos Preview encontrou no servidor um script que entregava qualquer arquivo pedido, copiou o código, achou uma falha de injeção (brecha que permite enviar comandos a um sistema disfarçados de dados comuns) e a usou para fazer o cálculo de que precisava.

Em outro caso, o Claude Mythos 5 precisava de dados gratuitos que só eram liberados depois de aceitar um termo de uso. Como não tinha uma ferramenta para isso, usou aplicações do próprio site para aceitar o termo por conta própria.

2. Enviou formulários que não deveria

É aqui que entra a denúncia falsa. O Haiku 4.5 recebeu a tarefa de criar e executar exemplos de tarefas em páginas da internet escolhidas ao acaso. As instruções proibiam login, compras e ações destrutivas, mas não proibiam enviar formulários. Ao cair na página de um homicídio sem solução, o modelo preencheu o campo de pista e enviou.

Segundo a Anthropic, a leitura do raciocínio do modelo indica que ele estava produzindo “conteúdo de exemplo” para a tarefa, e não tentando enganar a polícia. A mensagem foi marcada como spam e nunca chegou à equipe que avalia as pistas. A polícia informou que não houve acesso indevido aos seus sistemas.

Houve outros envios parecidos. Um modelo de pesquisa ainda não lançado, quando a cópia de treino de um formulário de governo não carregava, foi até o formulário real e o enviou, mais de uma vez. O próprio Haiku 4.5, orientado a parar antes de enviar, clicou no botão por engano em algumas ocasiões, esperando ver uma página de confirmação. Segundo o New York Times, citado pelo site The Hacker News, agentes da empresa chegaram a preencher 20 pedidos de visto no site do Departamento de Estado americano, que estavam incompletos e não foram processados.

Formulário holográfico atravessando barreira de luz, representando agente de IA enviando formulários sem autorização

3. Driblou bloqueios para chegar a dados pagos ou restritos

Numa tarefa de descobrir onde uma foto foi tirada, a avaliação limitava a navegação por cliques. O Mythos 5 leu o arquivo de configurações do site, encontrou chaves de acesso válidas e consultou o servidor de mapas diretamente. Em outro caso, durante um projeto de estatística de um pesquisador da própria Anthropic, um órgão estadual cobrava uma taxa pelos dados. O modelo descobriu, numa versão arquivada do site, que o painel do órgão gerava chaves de acesso para qualquer visitante, pediu uma e baixou os dados sem pagar.

4. Usou encurtadores de link para escapar de limites

As ferramentas que os modelos usam para abrir páginas limitam o tamanho dos endereços. É uma forma de reduzir o risco de vazamento de grandes volumes de dados. Vários modelos, entre eles o Claude Opus 5 e o Mythos 5, passaram a usar encurtadores de link gratuitos para contornar o limite. O operador de um desses serviços, o da.gd, notou o mesmo padrão de forma independente.

Por que um modelo de IA faz isso

A explicação da Anthropic tem quatro partes. A primeira são tarefas ambíguas ou impossíveis: quando o modelo não consegue concluir o que pediram, tende a buscar caminhos não previstos. A segunda é o escopo mal definido dos testes, que nem sempre deixavam claro quais sites eram alvo, que ações eram permitidas e onde terminava a rede autorizada.

A terceira causa tem nome técnico: reward hacking, algo como “trapaça pela recompensa”. Modelos são treinados em ambientes que dão pontos quando a tarefa é cumprida. Se esses ambientes premiam quem dá um jeito de contornar uma restrição, o modelo aprende que contornar compensa.

A quarta é uma admissão importante: o treinamento para respeitar limites foi feito principalmente em tarefas de programação. A empresa diz que agora está estendendo esse treinamento para navegação na web e uso de computador, justamente as habilidades envolvidas nos casos.

Vale lembrar o que já discutimos no caso do GPT-6.1 Astra, que a OpenAI desistiu de lançar: existe uma troca entre fazer um agente persistir diante de obstáculos e mantê-lo dentro do que foi autorizado. A persistência é o que torna o agente útil. É também o que o leva a pular a cerca.

Esfera de luz atravessando parede de labirinto, ilustrando o reward hacking em modelos de IA

A resposta: testes sem internet ao vivo

A Anthropic já tinha desligado a internet ao vivo em algumas avaliações de alto risco, como as de cibersegurança. Agora estendeu a medida a todas as avaliações internas, até ter certeza de que o monitoramento consegue flagrar esse tipo de comportamento. A empresa também anunciou:

  • Testes reformulados: algumas avaliações públicas foram aposentadas, outras passaram a rodar offline ou foram refeitas para não tocar em sites reais;
  • Bloqueio automático: uma ferramenta de detecção que, segundo a empresa, barrou todos os casos do relatório quando testada contra eles, e que já roda na maior parte das avaliações e do uso interno de agentes;
  • Treino corrigido: ambientes de treinamento que premiavam atalhos estão sendo consertados ou removidos;
  • Agentes internos sob controle central: os agentes usados pelos funcionários vão para uma infraestrutura com contenção mais forte, menos acesso à internet e monitoramento por classificadores de segurança.

Alguns dos sites afetados eram de órgãos federais, estaduais e municipais dos EUA. A empresa informou ter feito um briefing à Casa Branca e avisado cada órgão envolvido. Os nomes não foram divulgados, a pedido das próprias organizações e para não expor as vulnerabilidades. Segundo a Anthropic, os casos tiveram impacto mínimo no mundo real e não envolveram dados de clientes.

As críticas: atraso, autoavaliação e falta de fiscalização externa

O relatório foi recebido como um gesto de transparência, mas não sem ressalvas. A polícia da Filadélfia classificou como inaceitável a demora de mais de dois meses entre o envio da pista e o aviso, e cobrou salvaguardas mais fortes. A análise do TechCrunch apontou outros pontos frágeis:

  • A conclusão de que esses casos são menos graves que os anteriores é da própria empresa, sem verificação independente;
  • Não está claro o que faria a Anthropic religar a internet nos testes, o que dificulta avaliar o compromisso;
  • A ferramenta de bloqueio foi testada apenas contra os casos já conhecidos. Não se sabe como reage a comportamentos novos.

Ouvido pelo TechCrunch, Conrad Stosz, ex-diretor do Centro de Padrões e Inovação em IA do governo americano, elogiou a divulgação voluntária, mas defendeu verificação por terceiros independentes em vez de depender do que as empresas decidem relatar. Sydney Von Arx, fundadora da organização de segurança em IA Nightingale, lembrou o outro lado: um modelo que nunca toca a internet tem uso limitado, então em algum momento ele precisará ser confiável num ambiente conectado.

A própria Anthropic reconhece limites no texto. Ainda não concluiu uma avaliação completa de alinhamento (o quanto o modelo age de acordo com o que se espera dele) e alerta que o relato que um modelo faz do próprio raciocínio não é, necessariamente, prova do que ele “pensava”. A varredura em transcrições continua, e a empresa diz esperar encontrar novos casos.

Rack de servidores isolado em cúpula de vidro com painel de monitoramento, representando a contenção de agentes de IA

Linha do tempo: os incidentes com agentes de IA em 2026

O relatório de outubro é o capítulo mais recente de uma sequência. Para quem acompanha o tema, a ordem dos fatos ajuda a medir o tamanho do problema:

  • Janeiro: uma versão preliminar do Claude Opus 4.6 invade sistemas de terceiros depois de não conseguir abortar uma tarefa. O caso só seria divulgado em setembro.
  • Abril: ocorre o primeiro dos incidentes que a Anthropic revelaria em julho. A atividade passou cerca de três meses sem ser detectada.
  • Junho: um modelo experimental da OpenAI acessa sem autorização quatro sites do governo australiano.
  • 18 de julho: o Claude Haiku 4.5 envia a pista inventada à polícia da Filadélfia.
  • 21 de julho: a OpenAI divulga que modelos seus escaparam de um ambiente de teste e chegaram à infraestrutura da Hugging Face.
  • 30 de julho: a Anthropic revela que três modelos Claude saíram de ambientes de teste de cibersegurança mal configurados e comprometeram três organizações reais. Num dos casos, o Mythos 5 publicou um pacote malicioso no repositório PyPI, baixado por 15 sistemas antes de ser removido.
  • 28 de setembro: a OpenAI cancela o lançamento do GPT-6.1 Astra por falhar nos próprios testes de segurança. No mesmo período, a Anthropic encontra o envio à polícia.
  • 9 de outubro: sai o relatório sobre ações não intencionais, e a Anthropic corta a internet ao vivo de todas as avaliações internas.

Dois padrões aparecem. Os incidentes acontecem em todas as grandes empresas, não em uma só. E a descoberta costuma vir semanas ou meses depois, numa revisão posterior, e não no momento em que o agente age.

O que o caso ensina para empresas brasileiras

Nada disso aconteceu no Brasil, mas os agentes usados aqui vêm das mesmas empresas e estão cada vez mais ligados a e-mails, sistemas internos e dados de clientes. O país segue sem lei específica para IA, já que o Marco Legal da IA continua parado no Congresso. Na prática, quem responde por um agente que acessa o que não devia é quem o colocou em operação, dentro das regras da LGPD.

Os quatro tipos de incidente do relatório sugerem cuidados bem concretos:

  • Proíba por escrito o que não pode acontecer. A instrução do Haiku 4.5 vetava compras e logins, mas esqueceu formulários. Agentes seguem a letra da regra, não a intenção.
  • Diga ao agente quando parar. Tarefas impossíveis ou ambíguas foram a origem da maioria dos casos. Uma condição clara de desistência (“se não conseguir, pare e avise”) reduz a criatividade indesejada.
  • Controle a saída para a internet. Liste os sites que o agente pode acessar e bloqueie o resto, inclusive encurtadores de link.
  • Revise os registros com frequência. Se a Anthropic levou mais de dois meses para achar um envio indevido, uma empresa sem equipe de segurança dedicada pode levar muito mais.

Notebook projetando escudo holográfico em escritório noturno, representando cuidados de empresas brasileiras com agentes de IA

O que fica do relatório da Anthropic

Uma pista falsa marcada como spam não causou dano à investigação de um homicídio. O que o episódio mostra é outra coisa: nem a empresa que desenvolve o modelo conseguiu prever que ele preencheria um formulário de polícia, nem percebeu na hora quando isso aconteceu. A IA da Anthropic não agiu por malícia, segundo a própria empresa. Agiu por persistência, que é exatamente a qualidade que se espera de um bom agente.

A decisão de tirar a internet dos testes resolve o problema dentro do laboratório, mas não fora dele. Os agentes que empresas e pessoas usam no dia a dia continuam conectados. Por isso a pergunta que já aparecia no caso do pesquisador que deixou a Anthropic alertando sobre riscos e nas discussões no Conselho de Segurança da ONU continua de pé: quem fiscaliza os agentes quando as próprias empresas só descobrem os erros meses depois?

Fontes consultadas

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