Golpe dos nudes: como funciona a extorsão do falso “pai da menor” e o que fazer se você for o alvo

Em 21 de maio de 2026, policiais civis de São Paulo e do Rio Grande do Sul cumpriram 13 mandados de prisão contra um grupo acusado de extorquir pessoas em todo o país. Onze dos alvos não precisaram ser procurados: já estavam presos no Presídio Regional de Santa Cruz do Sul (RS), de onde, segundo a investigação, aplicavam o golpe pelo celular. “Constatamos que nas celas eles agiam de forma organizada, com celulares”, disse o delegado paulista Adair Marques Corrêa ao Portal Arauto.

A Operação Phantom começou com o relato de uma única vítima, em Carapicuíba, na Grande São Paulo. O roteiro que ela descreveu é conhecido das polícias há anos e tem nome popular: golpe dos nudes. Uma conversa íntima com um desconhecido, uma acusação grave feita por um falso pai ou um falso delegado e, logo depois, um pedido de dinheiro para “resolver” tudo.

Este artigo explica como a extorsão é montada, quem está do outro lado, o que diz a lei e o que fazer se você ou alguém próximo for o alvo.

O que é o golpe dos nudes

É uma extorsão. O criminoso cria um perfil falso, puxa conversa, leva o papo para o terreno íntimo e depois usa essa conversa contra a vítima. A cobrança vem embrulhada em uma acusação: a pessoa do outro lado seria menor de idade, e quem conversou com ela teria cometido um crime.

O golpe é parente próximo da sextorsão, termo que a SaferNet Brasil define como “a ameaça de se divulgar imagens íntimas para forçar alguém a fazer algo”. A diferença está na alavanca. Na sextorsão clássica, o medo é o vazamento. No golpe dos nudes, o medo principal é a prisão e a vergonha de ser apontado como abusador. Muitas vezes as duas ameaças aparecem juntas, e a extorsão com fotos íntimas vira um segundo motivo para pagar.

Um ponto muda tudo e raramente fica claro para quem está sob pressão: nas operações citadas neste artigo, quem conversava com a vítima não era uma adolescente. O perfil era operado pelos próprios golpistas, e o pai, o advogado e o delegado eram comparsas trocando de número.

Máscara translúcida sobre um celular, simbolizando o perfil falso usado na sextorsão

Como funciona a extorsão, em quatro atos

Polícias de estados diferentes descrevem a mesma sequência.

1. O perfil que puxa conversa

O contato começa em rede social, aplicativo de relacionamento ou WhatsApp. O perfil mostra uma pessoa jovem e interessada. Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, os perfis ficaram mais elaborados e chegam a adicionar amigos da vítima para parecer legítimos. Na Operação Phantom, havia também perfis masculinos, parte deles voltada ao público LGBTQIA+.

2. A conversa que vira intimidade

A vítima é incentivada a trocar mensagens e fotos íntimas. A conversa costuma migrar para um aplicativo de mensagens, onde o golpista passa a ter o número de telefone de quem está do outro lado.

3. O “pai” entra em cena

Outro número faz contato. Quem fala se apresenta como pai ou parente da jovem, afirma que ela é menor de idade e acusa a vítima de pedofilia. Em seguida vem a proposta: um pagamento para que a família não registre queixa. Depois surgem novas cobranças, como um suposto tratamento psicológico. A Polícia Civil gaúcha já registrou até pedido de dinheiro para o “enterro da adolescente”.

4. O falso delegado

Quando a vítima hesita, aparece a autoridade. Um comparsa usa nome e foto de um policial de verdade, tirados das redes sociais, e fala em inquérito e mandado de prisão. No Rio Grande do Sul, a foto do delegado Fernando Sodré, chefe da Polícia Civil do estado à época, foi usada para extorquir um jovem de 22 anos, que perdeu cerca de R$ 50 mil. Na Operação Phantom, os presos usavam o nome do delegado-geral de São Paulo.

É a mesma autoridade emprestada que sustenta o golpe do falso advogado. E há variações. Em um caso investigado em 2024, o grupo forjou um acordo judicial que supostamente impediria o pedido de prisão depois do pagamento.

Quatro celulares ligados por um fio de luz dourada, com máscaras translúcidas ao centro, ilustrando as etapas do golpe do falso pai e do falso delegado

Quem está do outro lado da tela

Em boa parte das operações, a resposta leva ao sistema prisional. Em Santa Cruz do Sul, 11 dos 13 alvos estavam presos. Em Mato Grosso do Sul, parte das contas usadas tinha ligação com presos de penitenciárias gaúchas.

Do lado de fora ficam os operadores do dinheiro. Familiares e conhecidos cedem contas para receber o Pix e repassar os valores em transferências fracionadas. Desde a Lei nº 15.397, de abril de 2026, ceder conta bancária para movimentar dinheiro de crime é punido de forma expressa, como explicamos no guia de golpes digitais no Brasil.

A polícia sul-mato-grossense calculou em mais de R$ 5 milhões o prejuízo das vítimas de um único grupo, que teve 15 pessoas indiciadas em setembro de 2025. No Rio Grande do Sul, uma investigação identificou 35 envolvidos e R$ 2,4 milhões tirados das vítimas em sete meses.

Por que tanta gente paga

Porque o golpe mira a vergonha, não a ingenuidade. A vítima acredita que cometeu algo grave, tem medo de perder a família e o emprego e não quer contar a ninguém.

Os alvos mais citados pelas polícias são homens de meia-idade ou idosos, muitos deles casados. Uma operação de 2022 no Rio Grande do Sul apontou preferência por ocupantes de cargos públicos. Mas há vítimas jovens, de várias classes sociais e de todas as regiões do país.

Pagar não encerra nada. Segundo o delegado que conduziu a Operação Phantom, os pedidos iam de R$ 500 a R$ 4 mil por vez e só paravam quando a vítima não tinha mais de onde tirar. Uma delas transferiu R$ 80 mil. Em outra investigação gaúcha, um idoso fez empréstimos e entregou o próprio carro ao grupo.

O custo vai além do dinheiro. Nesse mesmo caso, a delegada Ariadne Moraes Langanke relatou que boa parte das vítimas sofre em silêncio por constrangimento e que a pressão pode levar a endividamento, depressão e, em casos extremos, suicídio. Em uma investigação divulgada em 2024, a polícia relatou a morte de uma vítima de Goiás depois de uma sequência de ameaças. Se a situação estiver pesando a esse ponto, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, a qualquer hora.

Brilho de celular atravessando grades em um corredor escuro, representando golpes aplicados de dentro de presídios

Os sinais de que é golpe

  • Autoridade que cobra por mensagem. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul é direta: “nenhum Policial Civil, seja agente ou delegado, entra em contato para solicitar valores”.
  • Acusação e solução na mesma conversa. Quem quer denunciar um crime procura a polícia. Quem oferece silêncio em troca de Pix está cometendo um.
  • Valores que não param de subir. Reparação, tratamento, advogado, custas. Cada pagamento abre a porta para o seguinte.
  • Dinheiro para conta de pessoa física. O destino é a conta de um desconhecido, nunca um órgão público.
  • Pressa e ameaça de exposição. O prazo é de horas, e o aviso de que a família e o trabalho vão ficar sabendo vem junto.

Nome e foto de delegado de verdade não provam nada. Estão em sites oficiais e redes sociais, e é de lá que os golpistas tiram o material. A lógica é a mesma do falso familiar e da falsa central do banco, que detalhamos no artigo sobre golpes no WhatsApp.

O que diz a lei

O enquadramento usado pelas polícias é o de extorsão, artigo 158 do Código Penal: constranger alguém, mediante grave ameaça, para obter vantagem econômica indevida. A pena é de reclusão de quatro a dez anos e multa, aumentada de um terço até a metade quando o crime é cometido por duas ou mais pessoas, o que é a regra nesse golpe.

Em março de 2026, a Lei nº 15.358, o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, acrescentou um parágrafo ao artigo: a pena é aplicada em triplo quando a extorsão é praticada por integrante de organização criminosa, no contexto da atuação do grupo. E quem cumpre a ameaça de vazar nudes responde ainda pelo artigo 218-C, que pune a divulgação de cena de nudez sem consentimento com reclusão de um a cinco anos.

A Justiça tem condenado. Em decisão divulgada em março de 2025, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios manteve a pena de quatro anos, nove meses e 18 dias de reclusão de um réu que extorquiu um homem depois de um contato iniciado em site de relacionamento.

Para quem está sendo cobrado, o essencial é isto: quem sofre extorsão é vítima de um crime, e a orientação oficial é registrar a ocorrência. Se restar dúvida sobre a própria situação jurídica, um advogado ou a Defensoria Pública pode orientar.

Balança da Justiça dourada ao lado de um celular, representando o crime de extorsão no Código Penal

Golpe dos nudes: o que fazer se você for o alvo

A orientação da Polícia Civil gaúcha cabe em uma linha: registrar boletim de ocorrência assim que as ameaças começarem, bloquear os contatos e não fazer os pagamentos. Na prática, a ordem dos passos faz diferença.

  1. Pare de responder e não pague. Não negocie valor nem prazo. Nenhum pagamento compra o silêncio prometido.
  2. Guarde tudo antes de bloquear. Capturas de tela das conversas, endereço do perfil, números de telefone, chaves Pix e comprovantes. Não apague a conversa por vergonha: ela é a prova. O nosso guia de prova digital mostra como preservar esse material.
  3. Se já pagou, avise o banco na hora. Peça a contestação do Pix pelo aplicativo. A devolução não é garantida, e a chance cai a cada hora, como explicamos no artigo sobre o MED 2.0.
  4. Registre o boletim de ocorrência. Pode ser na delegacia online do seu estado ou na Delegacia Virtual do Ministério da Justiça e Segurança Pública, disponível nos estados que aderiram ao sistema. Informe os dados das contas que receberam o dinheiro.
  5. Denuncie o perfil e bloqueie os contatos. Use a ferramenta de denúncia da própria plataforma. Depois, bloqueie todos os números envolvidos.
  6. Proteja-se contra o vazamento. Se houver ameaça de divulgar fotos, o StopNCII.org cria uma impressão digital da imagem no seu próprio aparelho, sem enviá-la a ninguém, para que as empresas participantes possam barrar a publicação. O serviço é gratuito e voltado a maiores de 18 anos.
  7. Conte para alguém de confiança. O golpe depende do seu silêncio.

O que eu diria a quem acabou de receber a cobrança. “Primeiro, busque sempre a verdade: confirme se quem está falando é mesmo de um órgão oficial. Procure a delegacia de polícia por um canal que você mesmo encontrou, nunca pelo contato que mandou a mensagem. Segundo, conte a verdade para a sua família, mesmo que exista uma traição no meio. Eles também podem ajudar. Os bandidos não vão parar de extorquir, e as ameaças vão continuar. É normal chegar vulnerável e envergonhado. Mesmo assim, não tenha vergonha de denunciar. Você tem o direito de ser acolhido em uma delegacia.”

Emerson Vogt, editor do Portal Segurança Tec

Se a vítima for criança ou adolescente

Quando quem está sendo ameaçado tem menos de 18 anos, a situação é outra: há um crime real contra uma criança ou um adolescente, e a prioridade é acolher, sem bronca. Denuncie pelo Disque 100, procure o Canal de Ajuda da SaferNet, voltado a esse público, e use o Take It Down, serviço gratuito que ajuda a barrar a circulação de imagens feitas antes dos 18 anos. Os sinais de aliciamento e os caminhos de denúncia estão no nosso artigo sobre grooming digital.

Celular protegido por cúpula de luz e cadeado dourado, ao lado de uma balança da Justiça, simbolizando o que fazer ao sofrer ameaça de vazar nudes

Como reduzir o risco antes que aconteça

  • Desconfie da intimidade rápida. Conversa que esquenta em minutos e pedido para trocar de aplicativo formam um padrão.
  • Feche a lista de amigos e de seguidores. Os perfis falsos adicionam conhecidos da vítima para ganhar credibilidade.
  • Lembre que imagem pode ser fabricada. Com inteligência artificial, a ameaça pode chegar até para quem nunca enviou nada, como mostramos em golpes com deepfake.

Conclusão: a acusação é a arma

O golpe dos nudes funciona porque transforma a vítima em réu de um tribunal que não existe. No roteiro investigado pelas polícias, não há adolescente, não há pai indignado, não há delegado: há um grupo, muitas vezes dentro de uma cela, revezando números de telefone. De verdadeiro, só o medo de quem está do outro lado.

Por isso a saída quase nunca é técnica. É parar de responder, guardar as provas e contar a alguém, seja um parente, um amigo ou o plantão da delegacia. A Operação Phantom começou assim, com uma única pessoa que decidiu registrar o caso em vez de fazer mais um Pix. Se a mensagem chegar para você, a pergunta útil é esta: que autoridade de verdade resolveria uma acusação tão grave por transferência bancária?

Fontes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima