Golpe do falso advogado: como criminosos usam dados de processos públicos para enganar clientes

Na manhã de 19 de maio de 2026, 70 policiais civis saíram às ruas em São Paulo para cumprir 26 mandados. O alvo era uma quadrilha especializada no golpe do falso advogado. A investigação foi conduzida pela Delegacia Seccional de São José do Rio Preto, em parceria com a OAB SP. Segundo a polícia, o grupo movimentou cerca de R$ 10 milhões em seis meses.

Os criminosos trabalhavam de casa e buscavam dados de processos judiciais na internet. Além disso, chegavam a usar inteligência artificial para reproduzir vozes. Ao todo, a polícia estimou em cerca de 700 o número de vítimas.

O caso mostra por que esse golpe se espalhou tão rápido. Afinal, ele não depende de vírus nem de invasão sofisticada. Em vez disso, usa informações verdadeiras sobre um processo que a vítima tem na Justiça. Depois, oferece uma notícia que ela quer muito ouvir: “você ganhou a causa”. Por fim, faz um pedido de pagamento que parece só uma formalidade. Por isso, entender como funciona o golpe do falso advogado é a melhor forma de não cair nele.

mão segurando celular com contato de falso advogado e notificação de mensagem no golpe do falso advogado

O que é o golpe do falso advogado

No golpe do falso advogado, criminosos se passam pelo advogado da vítima. Também podem fingir ser alguém do escritório ou até um servidor do tribunal. Em geral, o contato chega por WhatsApp, com uma boa notícia sobre um processo em andamento. A causa foi ganha, um alvará foi expedido, há valores para receber.

No entanto, para liberar o dinheiro, seria preciso pagar antes uma “taxa”, “custa”, “imposto” ou “honorário”. É aí que o golpe se completa.

O que torna a fraude convincente é o nível de detalhe. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os criminosos usam dados reais dos processos. Ou seja, citam o número da ação, o nome das partes e o andamento. Em operações recentes, a polícia também encontrou golpistas usando fotos de advogados de verdade e logotipos de escritórios reais.

A dimensão do problema é grande. Em fevereiro de 2026, a OAB SP já contabilizava 4.388 denúncias do golpe do falso advogado no país. Assim, ele se tornou uma das variações mais lucrativas dos golpes digitais no Brasil.

Como os criminosos conseguem os dados do seu processo

Essa é a dúvida que mais intriga as vítimas: “como eles sabiam do meu processo?”. A resposta tem duas partes.

Primeiro, há a publicidade dos processos. Pela Constituição, a maior parte das ações judiciais é pública, e muitos dados podem ser consultados nos sites dos tribunais. Isso é uma garantia democrática, não uma falha. Mesmo assim, os golpistas aproveitam essa abertura para montar listas de pessoas com ações em andamento. Segundo a Ouvidoria do CNJ, as mais visadas são causas previdenciárias, de consumo e de grande volume.

Segundo, há o acesso indevido a sistemas. Em vários casos, os criminosos usaram login e senha verdadeiros de advogados. Essas credenciais foram obtidas em vazamentos ou golpes. Com elas, os criminosos entravam nos sistemas de processo eletrônico e viam informações mais detalhadas. É o mesmo mecanismo explicado no artigo sobre como hackers roubam contas.

dados de processos judiciais sendo extraídos de arquivo por criminoso encapuzado

Como o golpe do falso advogado costuma acontecer

Os relatos das vítimas e das investigações mostram um roteiro que se repete:

  1. O contato: chega uma mensagem de um número desconhecido, com a foto e o nome do advogado. Às vezes, o texto diz que “o doutor trocou de número”.
  2. A boa notícia: o falso advogado cita o número do processo e informa que houve decisão favorável.
  3. A cobrança: para receber, seria preciso pagar uma taxa, custas ou tributo. Além disso, sempre há urgência: “o alvará vence hoje”.
  4. O reforço: se a vítima hesita, entra em cena um suposto servidor do tribunal. Em alguns casos, há até uma ligação com voz parecida com a do advogado.
  5. O pagamento: o dinheiro é pedido via Pix, para conta de terceiros. Depois disso, o contato some.

A operação de São Paulo mostrou que o grupo usava uma central telefônica virtual e voz gerada por IA. O artigo sobre golpes com deepfake explica por que vozes clonadas enganam até quem conhece bem a pessoa imitada.

Sinais de alerta do golpe do falso advogado

  • Pedido de pagamento para liberar valores. Esse é o sinal mais importante. Segundo a OAB SP, o golpe se confirma quando há pedido de depósito em conta de terceiros. Advogados não fazem isso.
  • Número novo ou desconhecido, mesmo com a foto certa no perfil.
  • Urgência fora do comum, como prazo de horas ou ameaça de perder o valor.
  • Conta em nome de outra pessoa ou empresa, que não é o advogado nem o escritório.
  • Pedido de sigilo ou para não ligar para o escritório.
  • “Servidor do tribunal” no WhatsApp cobrando qualquer valor.

Como confirmar se o contato é mesmo do seu advogado

A regra é simples: nunca pague nada com base apenas em uma mensagem. Antes de qualquer transferência, siga estes passos:

  • Ligue para o advogado ou para o escritório pelo número que você já tinha. Nunca use o número que mandou a mensagem.
  • Use o ConfirmADV, plataforma da OAB Nacional que mostra se a pessoa está inscrita na Ordem.
  • Consulte o processo no site oficial do tribunal. Digite o endereço você mesmo e veja se a decisão citada existe.
  • Desconfie de qualquer cobrança antecipada. Valores de um processo são liberados por ordem judicial. Já os honorários são combinados em contrato com o seu advogado, e não cobrados por mensagem.
pessoa diante do computador com escudo de verificação, representando a confirmação do contato com o advogado

O que o Judiciário e a OAB estão fazendo

A escalada do golpe levou a uma reação em várias frentes. Desde 3 de novembro de 2025, o CNJ exige autenticação em múltiplos fatores para usuários externos do PJe, do Jus.br e da Plataforma Digital do Poder Judiciário. Dessa forma, fica mais difícil usar senhas roubadas.

O efeito já aparece nos números. Segundo a Ouvidoria do CNJ, as denúncias do golpe do falso advogado caíram a partir do segundo semestre de 2025. Foi justamente o período em que os tribunais ampliaram o uso do duplo fator.

No Congresso, o Projeto de Lei 4.709/2025 propõe medidas contra o golpe, como autenticação multifator nos sistemas judiciais. Em março de 2026, o CNJ aprovou nota técnica favorável ao projeto. Para o conselho, o combate à fraude deve vir de mais segurança no acesso, e não de menos publicidade dos processos.

A OAB, por sua vez, mantém uma campanha nacional contra o golpe desde abril de 2025. Além disso, criou forças-tarefa com as polícias em vários estados. A seccional do Pará, por exemplo, orienta advogados a comunicar qualquer uso indevido de seus nomes e imagens.

Caí no golpe do falso advogado: o que fazer

  • Fale com o banco imediatamente e peça a contestação da transferência. No Pix, quanto mais rápido o pedido, maior a chance de bloqueio pelo MED 2.0 do Banco Central.
  • Guarde todas as provas, como prints com número e data, comprovantes, áudios e dados da conta de destino. O guia de prova digital mostra como preservar esse material.
  • Registre boletim de ocorrência, de preferência em delegacia de crimes cibernéticos.
  • Avise seu advogado e a OAB da sua seccional. Essas informações já ajudaram a polícia a deflagrar operações.
  • Denuncie o número no próprio WhatsApp.
celular com alerta de fraude sobre a mesa, indicando o que fazer após cair no golpe do falso advogado

Se você é advogado: como proteger seus clientes

Os advogados também são vítimas, porque têm o nome e a imagem usados no golpe. Por isso, algumas medidas ajudam:

  • Manter a autenticação em dois fatores ativa nos sistemas judiciais e no e-mail profissional.
  • Nunca compartilhar senhas com estagiários ou terceiros.
  • Avisar os clientes, por escrito, que o escritório nunca cobra para liberar valores por mensagem.
  • Informar quais são os números e canais oficiais do escritório.
  • Comunicar à OAB e à polícia qualquer uso indevido do seu nome ou da sua foto.

Os mesmos cuidados valem para qualquer conversa por mensagem, como mostra o artigo sobre golpes no WhatsApp.

Caso real: operações contra o golpe do falso advogado em 2026

A operação de São Paulo foi batizada de SP Advocacia Mais Segura. Ela resultou de meses de trabalho de inteligência entre a Polícia Civil e a força-tarefa da OAB SP. Segundo os investigadores, apenas uma das presas teria movimentado mais de R$ 3 milhões sem origem lícita comprovada. Ao todo, ao menos dez suspeitos foram presos. Ainda assim, a polícia acredita que muitas vítimas nunca registraram ocorrência.

Dois meses depois, foi a vez do Pará. A Operação Data Venia foi deflagrada em 23 de julho, com apoio do Ministério da Justiça e da Polícia Civil do Ceará. Como resultado, foram instaurados 21 inquéritos. Segundo a delegada responsável, os criminosos usavam fotos de advogados, logotipos de escritórios e dados reais de processos.

Os dois casos mostram o mesmo padrão. São grupos organizados, que trabalham de forma remota e dividem tarefas entre núcleos. No entanto, todos dependem de um elemento que nenhuma tecnologia substitui: a vítima acreditar na mensagem sem confirmar por outro canal.

viaturas policiais em operação noturna contra quadrilha do golpe do falso advogado, com rede de conexões sobre a cidade

Conclusão: nenhum advogado cobra por mensagem para liberar seu dinheiro

O golpe do falso advogado funciona porque usa a verdade para vender uma mentira. O processo existe, o advogado existe e a causa pode até ter sido ganha. A mentira é que seria preciso pagar antes para receber.

As medidas do CNJ e as operações policiais estão reduzindo o espaço dos criminosos. Mesmo assim, a defesa mais eficaz continua sendo um hábito simples: desligar e ligar para o número que você já conhecia.

Portanto, se receber uma mensagem assim, não responda, não pague e confirme com o escritório. Além disso, compartilhe o alerta com familiares que tenham processos em andamento, especialmente previdenciários.

Fontes consultadas

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