Atualizado em 2 de novembro de 2026, às 23h (horário de Brasília). Este texto acompanha o ataque hacker à Binance, um caso em andamento, e será revisado à medida que a Binance e os investigadores divulgarem novas informações.
Em cerca de 20 minutos, no fim da noite de quinta-feira, 29 de outubro, aproximadamente US$ 6,3 bilhões em criptomoedas saíram das carteiras da Binance, a maior corretora de criptoativos do mundo. É mais de quatro vezes o recorde anterior. O ataque hacker à Binance já é tratado como o maior roubo da história do setor, e o FBI já atribuiu oficialmente o golpe à Coreia do Norte. Os saques foram retomados no domingo (1º), e a corretora diz ter reposto cerca de 90% dos ativos levados.
A pergunta que interessa a quem tem cripto no Brasil é outra: se uma empresa desse tamanho pode perder bilhões em minutos, quão seguro está o dinheiro deixado em uma corretora? Abaixo, o que já foi confirmado, o que ainda é suspeita e o que muda para o investidor comum.

O que se sabe até agora sobre o ataque hacker à Binance
Os números ainda estão mudando, e a própria Binance avisou que o total pode crescer conforme a apuração avança. Este é o quadro na noite de segunda-feira (2):
- Valor: a Binance fala em cerca de US$ 6,3 bilhões. A empresa de análise TRM Labs rastreou aproximadamente US$ 6,36 bilhões saindo de carteiras controladas pela corretora.
- Alcance: o dinheiro saiu por dez redes blockchain diferentes, entre elas Ethereum, Bitcoin, Tron, Solana e XRP Ledger. A maior fatia, cerca de US$ 3,8 bilhões, estava em Ethereum.
- Velocidade: a maior parte da retirada aconteceu em uns 20 minutos. Depois disso, o atacante voltou a varrer novos depósitos que caíam nas carteiras comprometidas por mais algumas horas.
- Reação: a Binance suspendeu os saques na quinta-feira e começou a liberá-los em etapas na madrugada de domingo (1º), primeiro em Ethereum, USDT e USDC. Nas primeiras horas, centenas de moedas ainda seguiam bloqueadas para retirada.
O recorde anterior pertencia ao ataque à Bybit, em fevereiro de 2025, quando cerca de US$ 1,5 bilhão foi levado. O FBI atribuiu aquele caso à mesma unidade norte-coreana agora apontada como suspeita.
Por onde os criminosos entraram
Segundo a investigação inicial da própria Binance, o ponto de partida foi o notebook de um engenheiro da empresa. A partir dele, o invasor teria alcançado um sistema interno capaz de autorizar retiradas e disparado transferências não autorizadas.
Na sexta-feira, a corretora informou ter encontrado “pontos adicionais de violação”, sem detalhar quais. Também disse não ter evidência de que alguma chave privada (a senha criptográfica que dá controle sobre uma carteira) tenha vazado. A causa completa ainda não foi publicada.
Os rastreadores identificaram ainda o uso de um recurso recente da rede Ethereum, que permite a uma carteira delegar permissões a um programa automatizado. Na prática, o controle da chamada hot wallet (a carteira “quente”, conectada à internet e usada para saques do dia a dia) foi repassado a um contrato que esvaziou os fundos. Há também sinais de preparação: a movimentação começou a ser montada pelo menos 36 horas antes do golpe.
O roteiro lembra muito o da Bybit em 2025, que também começou pela máquina de um desenvolvedor. É um padrão que se repete: em vez de quebrar a criptografia, os atacantes miram a pessoa que tem acesso ao sistema.
O elo mais fraco. “Não existe sistema no mundo à prova de invasão. Bancos e corretoras investem milhões todos os anos contra ataques e, mesmo assim, continuam vulneráveis. Muitas vezes o ataque não depende de software sofisticado nem de grande complexidade: basta uma engenharia social bem feita para alcançar a porta certa.”
Emerson Vogt, editor do Portal Segurança Tec

FBI confirma: Coreia do Norte está por trás do ataque
No sábado (31), o FBI atribuiu oficialmente o ataque hacker à Binance à Coreia do Norte e publicou mais de 600 endereços de carteiras ligados aos criminosos, nas redes Ethereum, Bitcoin e Solana. O órgão pediu que corretoras e empresas do setor bloqueiem qualquer movimentação vinda desses endereços. A confirmação oficial veio depois da análise das empresas de rastreamento, descrita abaixo.
A TRM Labs afirmou ter “alta confiança” de que o ataque hacker à Binance foi executado pela TraderTraitor, unidade de hackers norte-coreana ligada ao Grupo Lazarus. A Chainalysis, outra referência mundial em rastreamento de blockchain, chegou à mesma conclusão. O investigador independente ZachXBT também descreveu o autor como “provavelmente Lazarus”.
Os indícios vêm do comportamento das transações: a forma de mover o dinheiro para carteiras próprias espelha o caso Bybit, e parte dos valores foi misturada a fundos de outro ataque já atribuído a agentes norte-coreanos.
Antes da confirmação do FBI, o cenário era de cautela:
- A Binance foi mais cautelosa. O co-CEO Richard Teng disse que a investigação da empresa ainda não atribuiu responsabilidade a ninguém.
- Um investigador ouvido pela imprensa internacional ponderou que poucos grupos no mundo teriam capacidade para um roubo desse porte, mas que as evidências ainda não identificam o Lazarus de forma conclusiva.
- A Coreia do Norte costuma negar qualquer envolvimento em ataques hackers.
O que é o Grupo Lazarus
O Lazarus é um dos grupos de hackers mais conhecidos do mundo. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos o colocou sob sanções em 2019, afirmando que ele é controlado pelo principal órgão de inteligência da Coreia do Norte. Segundo o Council on Foreign Relations, o grupo faz espionagem e sabotagem, mas também opera com objetivo financeiro, mirando corretoras de criptomoedas.
O motivo é estratégico. Isolada do sistema financeiro internacional por sanções da ONU, a Coreia do Norte usa o roubo de cripto como fonte de moeda estrangeira. Um painel de especialistas da ONU calculou, em 2024, que o país havia roubado mais de US$ 3 bilhões em criptomoedas desde 2017, e associa esses recursos ao financiamento do programa nuclear.
Os números recentes mostram uma escalada. De acordo com a Chainalysis, grupos norte-coreanos levaram cerca de US$ 2,02 bilhões em 2025, recorde até então e 51% a mais que em 2024. Os ataques ficaram menos numerosos, porém maiores. Em 2026, antes da Binance, já constavam na lista casos como o da KelpDAO (cerca de US$ 290 milhões, em abril), também com suspeita de autoria norte-coreana.

Onde a China entra nessa história
A Binance tem raízes chinesas: foi fundada por Changpeng Zhao, conhecido como CZ, um bilionário canadense nascido na China. Mas a empresa não é uma corretora chinesa, e a ligação mais relevante entre o caso e a China está em outro ponto da engrenagem: a lavagem do dinheiro.
Roubar cripto é só a primeira metade do crime. Como a Coreia do Norte praticamente não tem acesso a bancos internacionais, os bilhões precisam passar por intermediários que transformem moedas rastreáveis em dinheiro utilizável.
No início de outubro, ZachXBT publicou uma investigação em que afirma ter se infiltrado em uma rede criminosa chinesa que lavou mais de US$ 1 bilhão para o Lazarus, incluindo boa parte do que foi roubado da Bybit. Ele se passou por cliente, contratou o serviço com cerca de US$ 350 mil e cruzou as conversas com os operadores com os registros públicos da blockchain. Os dados foram compartilhados com autoridades antes da divulgação. Até então, nenhuma acusação formal havia sido anunciada.
Esse elo explica por que analistas preveem um “jogo de gato e rato” nos próximos meses: o dinheiro levado no ataque hacker à Binance deve tentar o mesmo caminho, pulando entre redes para dificultar o rastreio até chegar a quem converta tudo em moeda comum.
É justamente nesse ponto que as autoridades costumam concentrar a pressão:
Seguir o dinheiro. “Esses grupos precisam do dinheiro para financiar seus crimes. Da mesma forma que acontece com o crime organizado em qualquer lugar, a polícia tenta sufocá-los bloqueando contas e bens, para que não tenham como operar.”
Emerson Vogt, editor do Portal Segurança Tec
Ataque hacker à Binance: o dinheiro dos clientes está seguro?
A Binance afirma que sim. A empresa diz que os fundos dos usuários estão seguros, que vai cobrir todas as perdas com recursos próprios e que separou mais de US$ 6,34 bilhões para isso. No sábado (31), o co-CEO Richard Teng disse que cerca de 90% dos ativos roubados já tinham sido repostos e que o restante, em tokens de menor liquidez, também será coberto. Os saques voltaram no domingo (1º), como prometido. Nas primeiras 9,5 horas, os clientes retiraram US$ 3,64 bilhões a mais do que depositaram, o equivalente a cerca de 2% dos ativos da corretora, e o ritmo diminuiu depois da corrida inicial. A empresa também prometeu publicar um relatório completo de prova de reservas (o documento que demonstra que a corretora tem os ativos correspondentes aos saldos dos clientes) até segunda-feira (2). Até o fechamento desta atualização, o resultado ainda não havia sido divulgado.
Dois fatores pesam a favor da corretora:
- Congelamento parcial: emissores de stablecoins (criptomoedas atreladas ao dólar), como Tether e Circle, bloquearam parte dos valores. As estimativas variam entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões congelados, conforme a fonte e o horário da apuração.
- Tamanho da empresa: segundo a DefiLlama, o valor roubado equivale a cerca de 4% dos ativos que a plataforma custodiava antes do ataque.
Ainda assim, há ressalvas. O fundo de emergência da Binance para usuários, o SAFU, criado em 2018, é de cerca de US$ 1 bilhão, mais de seis vezes menor que o rombo. A cobertura, portanto, depende do caixa da empresa, não só do fundo. E o atacante ainda mantinha, na sexta, mais de US$ 2 bilhões fora do alcance das autoridades.
Para o cliente brasileiro, a operação local da Binance (BBrasil SPSAV) informou que os ativos dos clientes do país ficam em carteiras frias, desconectadas da internet, e separados do patrimônio da empresa conforme as regras do Banco Central. Segundo a corretora, esses fundos permanecem seguros. A Binance Japão também informou não ter identificado efeito sobre ativos de seus clientes.

O efeito no mercado
O susto do ataque hacker à Binance chegou aos preços. O bitcoin caiu à mínima em seis semanas, perto de US$ 76,4 mil, e o ether recuou mais de 3%, ao menor nível em dois meses. Ações da Coinbase, que não foi afetada, perderam 4,8%. Analistas lembram que o mercado já vinha pressionado por juros altos nos EUA, e as cotações se estabilizaram depois do primeiro choque.
O que o ataque hacker à Binance ensina a quem tem cripto no Brasil
O caso deixa uma lição incômoda: quem mantém cripto em uma corretora depende da segurança dela, e o cliente não enxerga como as chaves são protegidas. Quando o ataque atinge os sistemas da própria empresa, a senha forte e a autenticação em dois fatores do usuário não impedem a perda; o que protege é a solidez financeira e a resposta da corretora.
Isso não significa que guardar tudo por conta própria seja automaticamente melhor. A autocustódia elimina o risco da corretora, mas transfere ao investidor a responsabilidade por chaves, frases de recuperação e dispositivos. Muita gente perde mais por golpe ou descuido do que perderia em um ataque como este.
Algumas medidas práticas fazem diferença:
- Não concentre tudo em um só lugar. Dividir valores relevantes entre plataformas, ou entre corretora e carteira própria, reduz o tamanho do estrago em qualquer cenário.
- Prefira empresas autorizadas. No Brasil, as Resoluções 519, 520 e 521 do Banco Central, em vigor desde fevereiro de 2026, exigem das prestadoras de serviços de ativos virtuais separação entre o patrimônio da empresa e o dos clientes e comprovação de reservas.
- Desconfie de “suporte” nos próximos dias. Grandes incidentes atraem golpistas que se passam pela empresa prometendo reembolso, liberação de saque ou “verificação de conta”. A Binance só se comunica pelos canais oficiais.
- Use autenticação forte na sua conta. Não teria evitado este ataque, mas continua sendo a principal barreira contra o roubo de contas individuais, que é muito mais comum.
Antes de escolher a corretora. “Sempre verifique se a corretora oferece algum tipo de seguro ou fundo de proteção para os seus ativos e pesquise o histórico dela antes de investir, para evitar fraudes. Confira também se ela é autorizada pelo Banco Central.”
Emerson Vogt, editor do Portal Segurança Tec

Os maiores roubos de criptomoedas da história
A comparação ajuda a dimensionar o caso e mostra como a Coreia do Norte aparece repetidamente no topo:
| Data | Alvo | Valor aproximado | Autoria apontada |
|---|---|---|---|
| Out/2026 | Binance | US$ 6,3 bilhões | Coreia do Norte, segundo o FBI |
| Fev/2025 | Bybit | US$ 1,5 bilhão | Coreia do Norte, segundo o FBI |
| Mar/2022 | Ronin Network | US$ 620 milhões | Coreia do Norte, segundo o Tesouro dos EUA |
| Ago/2021 | Poly Network | US$ 610 milhões | Hacker devolveu quase tudo |
| Fev/2014 | Mt. Gox | 850 mil bitcoins | Corretora faliu |
O que acompanhar nos próximos dias
Com os saques de volta, três pontos vão definir o tamanho real do ataque hacker à Binance: o que o relatório de prova de reservas vai mostrar, quando as centenas de moedas ainda bloqueadas voltam a ser liberadas e quanto do dinheiro ainda livre as autoridades conseguem congelar antes que a rede de lavagem entre em ação.
Há também uma questão maior. Com a autoria confirmada pelo FBI, um único ataque da Coreia do Norte superou, em minutos, tudo o que o país roubou ao longo de 2025. Para um regime que usa cripto roubada para driblar sanções, isso muda a escala do problema, e a pressão sobre corretoras, emissores de stablecoins e reguladores tende a crescer.
Para entender como esses criminosos operam do lado do usuário comum, vale ler nosso guia sobre como hackers roubam contas e o comparativo de autenticação em dois fatores. Empresas encontram o contexto do outro lado do problema em os prejuízos dos ataques digitais além do resgate e em ransomware no Brasil. E, se a dúvida é para onde vão dados e valores roubados, o texto sobre Surface Web, Deep Web e Dark Web ajuda a fechar o quadro.
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Fontes consultadas
- Al Jazeera — Binance says $6.3bn stolen in biggest crypto heist in history
- CNN — World’s largest crypto exchange hit by suspected North Korean hack
- crypto.news — Lazarus Group suspected in $6.3 billion Binance hack
- The Defiant — Binance’s Teng targets Sunday withdrawal restart after hack
- 24/7 Wall St. — A Chinese network laundered more than $1 billion for North Korea’s Lazarus Group
- IstoÉ/AFP — Hackers norte-coreanos são suspeitos de roubo de US$ 290 milhões em criptomoedas
- Capital Aberto — BC publica regras para o mercado de criptoativos
- NBC News — FBI says North Korea was behind the $6.3 billion Binance crypto hack
- SecurityWeek — FBI flags over 600 addresses tied to North Korea’s Binance heist
- CNBC — Binance resumes withdrawals, says 90% of stolen user assets are covered
- Free Press Journal — Binance logs $3.64 billion in net outflows after reopening withdrawals
- Times Brasil — Binance reserva R$ 34,5 bi após ataque e garante fundos no Brasil
- Chainalysis e TRM Labs — empresas de análise de blockchain citadas na atribuição

